sábado, 8 de março de 2014

HOMENAGEM À MULHER



Evas e pandoras:  O feminino revistado

       Certa vez o jornalista Caio Túlio Costa escreveu um artigo no qual aborda O Feminino partindo da análise mitológica em torno da Guerra de Troia e, é claro, sem concordar com a conclusão, constata que "de Troia se pode tirar a lição da importância politicamente incorreta da mulher enquanto objeto de beleza e vaidade".
       Ora, o imaginário ocidental está recheado, desde a Antiguidade, de mitos, crenças e relatos fabulísticos em torno da mulher, seus encantos, feitiços e, principalmente, dos malefícios que pode acarretar. Por isso, é preciso, infelizmente, acrescentar à reflexão de Caio Túlio um outro viés desagradável e negativista quanto ao papel Feminino na história humana: a Mulher como introdutora dos males do mundo.
       Há duas explanações exemplares que situam a origem das imperfeições humanas como consequência da ação feminina: o mito hebraico de Adão e Eva, e o mito grego de Prometeu e Pandora.
       O mito hebraico (por demais conhecido e, até, paradigmático) elabora um Paraíso centrado em duas árvores essenciais ( a da Vida e a do Conhecimento), nele situa o casal humano primordial e este recebe um único interdito: não aspirar à igualdade com a divina perfeição. Por livre vontade, mas tentado por um veículo do mal externo ao humano (a serpente), o casal rompe o pacto (ao apoderar-se do Conhecimento) e, sendo expulso da presença da Divindade, não consegue apropriar-se da Árvore da Vida; nesse mito Adão acedeu à tentação de Eva, antes assediada pela serpente. A Divindade não os deixou impunes. Para o Homem ("porque deste ouvidos à voz de tua mulher"), o castigo foi comer o pão com o suor do próprio rosto. Para a Mulher disse: "multiplicarei os teus trabalhos e teus partos; darás à luz com dor os filhos, e estarás sob o poder do marido, e ele te dominará".
       Por sua vez, o mito grego também está calcado, inicialmente, nos perigos da tentativa de igualar-se aos deuses. Zeus estava irritado com Prometeu porque este houvera roubado o fogo (símbolo do saber e da técnica) e entregue ao gênero humano; para vingar-se, Zeus ordena a Hefesto (deus do fogo, correspondente a Vulcano dos romanos) que, usando barro, faça aquela que seria a primeira mulher na Terra: Pandora (todos os dons). Zeus a ela entrega um jarro lacrado e a proíbe de abri-lo, enviando-a para Epimeteu (irmão de Prometeu); curiosa, ela rompe o lacre e dali escapam  os males que atingirão a humanidade. No fundo do jarro (portanto, em posse da humanidade) restou apenas a esperança.
       Parte da penalidade imposta à Mulher pela divindade hebraica, a multiplicação dos trabalhos, parece continuar valendo. De acordo com estudos da OIT (Organização Internacional do Trabalho), do total de horas trabalhadas diariamente no planeta para a sobrevivência da espécie, dois terços os são pelas mulheres (isso apesar da população mundial ser quase paritária quanto ao percentual de masculino e feminino). Da penalidade outorgada por Zeus, felizmente sobrou a esperança.
       Pandoras ou Evas, as mulheres, a cada dia, constroem a igualdade de gêneros. Estava Simone de Beauvoir correta ao dizer que "não se nasce mulher, torna-se"...

FONTE: Mário Sérgio Cortella

Colaboração: Wilson Mattos

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- Kant "Quem não sabe o que busca,  não identifica o que acha." Colaboração: Itazir  de  Freitas